quarta-feira, 8 de julho de 2009

Minha dor.

Era uma menina triste. Sem esperança de dias melhores.
O que ela conhecia por família acabou.
Vivendo só, no seu mundinho triste.
Pai pra um lado, mãe pro outro.
Vendo seu irmão ser humilhado, explorado. Ele também era ainda uma criança.
Aquelas pessoas não tinham coração.
Tinha medo de cachorros. Ainda mais aqueles enormes que ficavam no quintal.
Mas ela era obrigada a enfrentá-los de manhã cedo se quisesse tomar banho e ir pra escola.
Sua “vódrasta” colocava sua toalha nas cordas no quintal de propósito, pois conhecia seus medos e se divertia com isso.

Às vezes ela pensava: “pensei que vó era aquela que trazia um bolinho de fubá quentinho pros seus netos... imaginava q fosse uma senhorinha um pouco gordinha, que usasse óculos e tivesse os cabelos grisalhos...”

Definitivamente ela se sentia como a gata borralheira. A madrasta do filme era a vó na vida real; as filhas da madrasta eram suas tias... Uma dolorosa analogia.

Só lhe restava estudar, isso quando não a chamavam pra isso ou aquilo.
Seus dias eram sem cor, nem mesmo eram em preto e branco.
Eram vazios.

Rezava baixinho pra chegar a sexta-feira. E então poderia ir passar o fim de semana com sua mãe.
Ligava escondida e ao ouvir o “alô” do outro lado da linha, se danava a chorar... Dizia que ia nesse fim de semana. E desligava o telefone.

Começava outra batalha: convencer alguém a lhe levar pra ver sua mãe.
Implorava pra um, pra outro. Pedia. Suplicava. Mas nunca desistia. Importunava. Até que conseguia.

E quando descia do carro e via sua mãe... toda aquela dor passava. Não queria mais voltar. Não queria nunca mais voltar.

Marília Araujo.


2 comentários:

Marília Reul disse...

Eu me agarraria nas pernas de minha mãe..
=X

adorei o texto =D
Por mais do vazio durante os dias de semana...
Mas depois vejo: '' e viveram felizes para... amm.. até o final de semana ''

=X

;D

parabéns..
Espero que esta garotinha seja apenas uma personagem de ficção.
=)

Marília Reul disse...

Uou
Marília,desculpe-me...
Estou sem o que dizer aqui...
Mas acho que esta garotinha, hoje adulta, tenha encontrado uma forma de suavizar toda a dor que um dia sentiu. Quem sabe, na própria vida, ou através destes escritos. E dá a volta por cima de todas as barreiras.

;**